ZonaReGGae Reviews:”Medicine Man”


Ras Michael Junior…Inna de Yard – Medicine Man 2007 Makasound/Massala Records

As origens musicais do movimento rastafari, que o roots reggae na década de 70 deu a conhecer ao mundo, encontram-se nas raízes africanas da música Nyahbingi, a primeira expressão musical do movimento iniciado nos 30.
Como muita da criação, foi em África, mais concretamente no Uganda, que o Nyahbingi surgiu, na forma de um movimento religioso, espiritual e politico, liderado por mulheres curandeiras que se dizia estarem possuídas pelo espírito Nyahbingi, uma lendária Rainha Amazona. A acção militar contra o imperialismo e colonialismo europeus eram o principal enfoque do Nyahbingi que significava então “Ela que possui muitas coisas”. Curiosamente, na Jamaica, onde o movimento se desenvolveu envolto numa filosofia mais pacífica, Nyahbingi traduziu-se como “Morte a todos os opressores pretos e brancos.”

Foi através do profeta, filósofo e pai fundador do movimento rastafari, Leonard Percival Howell, e das “reuniões” por ele fomentadas entre os seus seguidores, intituladas de grounations, que a música nyahbingi começou a adoptar a sua forma jamaicana.
Ao longo dos anos da sua luta contra o poder estabelecido, Howell criou inúmeras “comunas”, primeiro em St. Thomas e mais tarde nas montanhas jamaicanas (principalmente na famosa Pinnacle)…locais de encontro e fusão de diversas formas de música e cultura Africana e Afro-Europeia como a Kumina, Burru, Myal ou Pocomania.
O estilo Nyahbingi foi introduzido na Jamaica e entre os rastafaris pelo activista no estabelecimento e perpetuação das culturas africanas e rastafari na ilha, Oswald Williams conhecido como Count Ossie.
Tal como Howell, Ossie era um viajante, e foi nas suas jornadas que tomou contacto com o nyahbingi e com as artes de percussão africanas. Depois de aprender a dominar a técnica dos Burru drums, Ossie encomendou um set de tambores característicos das culturas africanas, inexistentes na Jamaica até então (antes de 1953 apenas existiam rumba box’s…), e criou os seus próprios padrões baseados nos burru drums.

 

 

Era o início do seu feito mais importante, dotar o movimento rastafari de um estilo musical. Acabaria mesmo por ser ele, através do produtor Prince Buster, a realizar a primeira gravação de estúdio a incluir o estilo, o hit de 1960 “Oh Carolina” em conjunto com os Folkes Brothers. O single teria sucesso relativo, mas o estilo comercialmente não. No entanto, Count Ossie e o seu grupo The Mystic Revelations of Rastafari continuaram a tocar e a registar em gravação a música nyahbinghi, quer nas grounations, quer em estúdio…Outros se seguiram, como Ras Michael & The Sons of Negus, provavelmente o mais célebre dos binghi drummers, ou mais tarde o conhecido saxofonista Cedric Brooks (também ele um membro dos Mystic Revalations of Rastafari) com o grupo Light of Saba.

 

 

Nos anos 60, as comunas onde aconteciam já habitualmente as grounations, eram mais que referenciadas pelas autoridades como um potencial perigo á ordem, e os rides policiais eram frequentes até que estas por fim, cessaram de existir…
O êxodo de muitos dos rastafaris para os centros e ghettos urbanos de Kingston, levou consigo a tradição cultural e musical nyahbingi, incorporando-a pouco a pouco na indústria musical da ilha.
Por esta altura o R & B, o ska e o rocksteady começavam a fazer movimentar o negócio músical dos estúdios, para além de serem frequentes nos gigs de hotel ou nos soundsystems que começavam a proliferar em cada esquina e rua de Kingston.
No entanto, a vibração e essência originadas pelos primórdios nyahbingi resistiu no seu mais puro formato de “Jam in the Street”, adaptada ao novo cenário citadino dos ghettos, nos pátios e traseiras das “casas” amontoadas nos subúrbios.
A falta de condições e equipamento técnicos, instrumentos ou simplesmente meios para adquirir fosse o que fosse, pareciam não afectar os ghetto sufferers, que continuavam a tocar a cantar a glória e salvação de Jah, dançando ao ritmo e batida do espírito nyahbingi que traria a morte a todos os opressores…A música reggae no seu mais puro e natural estado criativo era construída pelos seus fundadores, muitos esquecidos no tempo, outros “abafados” pela opressão que combatiam, alguns as futuras estrelas da música jamaicana.

Quase 40 anos depois, um desses fundadores, o versátil guitarrista Earl “Chinna” Smith, “emprestou” o seu “Yard” para (re)criar as origens do roots reggae, no conceito apresentado na colecção “Inna de Yard”, pela label francesa Makasound.
Inna de Yard…apresenta as músicas da forma que elas foram criadas… Música acústica, poderosa, intensa e livre, envolta num ambiente de meditação e mística, são denominadores comuns a todas as 7 edições que compõem a já mundialmente reconhecida Inna de Yard series…
Iniciada em 2004, a série Inna de Yard abriu com um registo daquele que é um dos maiores impulsionadores do projecto, Earl “Chinna” Smith. Figura incontornável da música reggae, “Chinna”, também conhecido como Earl Flute (alcunha dada por Keith Hudson), é um dos nomes da música jamaicana que mais fez pela fundação e perpetuação ao longo dos anos dos ritmos do reggae. Desde as suas origens como guitarrista dos Soul Syndicate, passando pelos seus trabalhos com os Wailers ou com Ziggy Marley & The Melody Makers até às colaborações mais contemporâneas com Sizzla e a X-Terminator Crew, Earl “Chinna” tem deixado a sua marca como compositor, autor, interprete, produtor…Os créditos em mais de 500 álbuns, o envolvimento em mais de metade de todos os álbuns que já venceram o Grammy na categoria do reggae ou os seus trabalhos mais expansivos junto de nomes como Lauren Hill, Erykah Badu ou Joss Stone, categorizam o envolvimento de Chinna no mundo da música em geral, e o seu envolvimento nos Inna de Yards parece surgir também da sua enorme paixão pela música acústica em contraposição às tendências electrónicas. Para “Chinna”, quando se acredita que a música que tocamos pode ser o mais natural possível, então será também mais espiritual…

Inna de Yards catalog

Essa acaba mesmo por ser a premissa dos Inna de Yards, desde a estreia em 2004 Earl “Chinna” Smith & Idrens, seguiram-se Linvall Thompson, Kiddus I, Cedric “Congo” Myton, The Viceroys, Ras Michael Jr e para breve Junior Murvin, numa sempre extraordinária mistura de Recriação/Jam, dos grandes temas que marcaram a viagem musical de todos estes fundadores do reggae.
Com as gravações divididas entre o Yard de “Chinna” e de Jah Clive, o habitual recording & mixing enginner dos Inna de YardsJah Youth, Kush McAnuff, Winston McAnuff, Emmanuel I, Ken Bob, Ronnie Davis, Derrick Hinds entre muitos outros, são alguns dos músicos que se juntam Inna de Yards para este revival acústico.

A semelhança de Kiddus I, nome mítico do roots, que lançou com Inna De Yard, o seu primeiro registo de longa duração!, o primeiro lançamento em 2007 da série da Makasound, é também uma estreia, com o filho do já referido Ras Michael, Henry Michael a.k.a. Ras Michael Junior, a mostrar ao mundo as suas influências musicais no formato acústico, com o álbum “Medicine Man”.

Acompanhado pela sua “Jah is My Light Band”, pela guitarra de “Chinna” e ainda pelas vozes em puro Nyahbingi style de Ronnie Davis (vocalista do grupo da era rocksteady The Tennors), Ras Michael Junior é o primeiro a ousar escapar ao formato strictly roots reggae dos Inna de Yard, apresentando-se como um singer/songwriter (o chamado canto autor) na linha tradicional do Blues e do Folk Americano, onde tem sido comparado a nomes como Bob Dylan, Bem Harper ou Tracy Chapman.
A batida Nyahbingi, acaba por ser uma constante ao longo do set, com destaque para os temas de intro e outro, “Voice Unto Jah” e “My Prayer to Jah”, vocalmente interpretadas por Ronnie Davis, o tema de estreia, “Spiritual Order” ou o hino a Jah Rastafari “How Excellent is Thy Name”.

 

 

Medicine Man tracklistAinda assim, são as malhas em formato folk-blues-balada de reggae, que destacam a poderosa e sentida voz de Ras Michael Junior. Quer seja nos louvores á Vida em “Old Man” e “White Line”, nos avisos á Babilónia em “Make More Money” ou na title track “Medicine Man”, Ras Michael entrega-se profundamente à força do canto e lírica Rastafari e à simplicidade da música Folk, para uma muito bem conseguida combinação dos contadores de histórias Africanas, com o sentimento dos clássicos Blues Man americanos aliados ao sofrimento do Roots Man jamaicano.

Pode não ser um registo de roots reggae, e os fãs da série vão certamente reparar no pormenor, mas Medicine Man continua a linha de apresentação da música no modo em que ela foi criada nos Yards jamaicanos…Para Ras Michael Jr., de quem pouco se conhecia até agora, está é também a melhor e muito corajosa forma, para os dias que correm, de marcar o seu estilo musical, com o enfoque Nyahbingi, incontornável pela “presença” do pai Ras Michael, a perpetuar a importância das origens africanas como base da MÚSICA, a batida natural, espiritual, original, ancestral…

“Old Man, Old Man, what is your name?
Seems like you´ve been living for a while…

So they captured him
And put him into a glass house, on top of a hill
So, he break out of the glass house, and ever since
He´s been living from bugs & seeds from the trees

Old Man, Old Man…what is your name?
The name is life…I´ve been living forever…”

Old ManRas Michael Junior

InfoFLASH: Para saberes mais…o catálogo Inna de Yard, está disponível no mercado nacional, desde o ano de 2006, através da Massala Records, onde podes ainda tomar contacto com muitas das reedições e raridades de Roots Reggae lançadas pela Makasound.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s


%d bloggers like this: