ZonaReGGae reviews “Life is a Stage”


Mikey DreadLife is a Stage 2007 Dread At The Controls

Em plena década de 70 na Jamaica, o roots reggae era a expressão musical que reflectia os sentimentos do povo. Se nomes como Bob Marley & The Wailers ou Burning Spear assumiam-se como os artistas culturais que começavam a levar esses sentimentos até outras partes do globo, muitos outros desenvolviam e elevavam a indústria musical da ilha a um ponto nunca antes visto…Roots Rockers era o som do “dancehall” e a arte do Toasting criava o elo de ligação entre o soundsystem e o estúdio de gravação.
Apesar deste continuo e prospero crescimento da indústria local, os meios de promoção radiofónicos jamaicanos, prosseguiam com a sua aversão aos talentos locais, continuando a alta e quase exclusiva rotação da musica importada dos Estados Unidos….Quase, apenas porque era dada a oportunidade às editoras e estúdios da ilha de compraram espaço (entendido como publicitário) para divulgaram os lançamentos mais recentes…Opção só ao alcance dos estúdio economicamente rentáveis como o Studio One e o Tresure Isle.

Dread on the mic & Keppin it Right!

Decorria o ano de 1976, quando um praticamente desconhecido selector e engenheiro de som revelou-se e entregou-se à tarefa de mostrar a toda a ilha a era dourada que a música jamaicana experimentava. Michael Campbell, nascido em Port Antonio, em 1954, interessou-se muito cedo pela música reggae, coleccionando vinil e seleccionando os seus discos nos soundsystems locais, enquanto estudou também engenharia electrónica na universidade.
Os seus estudos proporcionaram-lhe a hipótese de trabalhar como engenheiro de transmissão para a maior (das duas…) rádio jamaicanas, a Jamaica Broadcasting Corporation (JBC).
O formato radiofónico na altura, era em tudo semelhante ao praticado em Inglaterra, e rapidamente Michael Campbell apercebeu-se que a rádio não estava a atingir a verdadeira audiência jamaicana que a ouvia, com a programação a basear-se nas referencias Billboard Magazine e Cashbox Magazine….resultado, a música roots não tinha airplay…
Aproveitando o facto da emissão da JBC terminar á meia-noite, Campbell conseguiu persuadir os directores da JBC a deixá-lo tomar o controle nocturno do estúdio para um programa. Pensando que ninguém o iria ouvir, a JBC reservou-lhe espaço nas noites de sábado….Michael Campbell deu então lugar a Mikey DreadThe Dread at The Control – nome com que baptizou as 4 horas do seu programa, onde Mikey Dread aproveitou todo o seu conhecimento musical e a sua imensa colecção, para passar reggae tal como fazia no soundsystem…O sucesso foi imediato, não só pelo facto do Dread at the Control apenas “exibir” musica jamaicana, mas também pela seu estilo de locução único e inovador, bem ao estilo dos toasters dos soundsystems. As suas produções de jingles, gravadas no estúdio de King Tubby (com vozes como as das conhecidas Althea & Donna); a inteligente opção de rodar os temas originais dos riddims do momento no “dancehall”; e a introdução de material novo que muitas vezes tinha sido editado há poucas horas atrás(!), foram só algumas das inovações que levaram The Dreads at The Controls até ao topo dos programas de rádio jamaicanos, culminando com o prémio de Top Radio Personality of the Year em 1977-1978.
Enfurecidos pelo sucesso de Dread e preocupados com a possibilidade do reggae tomar conta do airplay das rádio, a pressão dos tradicionais “apresentadores” de rádio não se fez esperar…Apesar da figura de culto de Mikey Dread, e de ser o detentor da maior audiência da JBC, os directores pressionaram-no para passar menos roots…Em 1979, Mikey Dread deixou a JBC…apenas para começar uma das mais impressionantes carreiras do mundo da música jamaicana.

                           

Ainda na JBC, e através dos produtores Lee Perry, Sonia Pottinger e Mighty Two, Mikey Dread já havia entrado em estúdio para a gravação de temas como “Dread at The Control”, “Homeguard” ou “Rootsman Revival”. O seu álbum de estreia em 1978 “Dread at The Controls” e a versão álbum do seu programa “African Anthem dubwise”, no mesmo ano, revelavam já as amplas capacidades de Mikey Dread.
Depois de uma curta passagem como engenheiro de som no Treasure Isle, o conhecido produtor Carlton Patterson for a parceria seguinte, com quem produziu em conjunto o hit “Weatherman Skank” do deejay Ray I.
Seguiram-se o lançamento da sua label Dread at the Controls(DATC), onde lançou os referidos álbuns de estreia “Dread at the Controls” e “African Anthem dubwise”, e a produção de nomes da emergente cena roots dancehall como Sugar Minnot, Junior Murvin, Earl Sixteen ou Wally Bucker.

 

Mikey Dread backed by UB40@UK (1983)

Como muitos outros nomes da música jamaicana, o início dos anos 80 também levou Mikey Dread até ao Reino Unido, com o propósito de promover os seus álbuns de estreia.
Este foi o início de uma internacionalização que elevaria Mikey Dread ao estatuto de um dos mais influentes promotores e performers da música reggae. As suas colaborações com o grupo de punk-rock do momento The Clash ( que culminou com o featuring de temas e produções suas no álbum Sandinista!), levou ao convite dos UB40 para uma tour (bem como aos mixes no lado B dos hits “Red Red Wine” e “Cherry Oh Baby”).
Em Inglaterra a sua graduação com alta recomendação na National Broadcasting School of London, permitiu-lhe aperfeiçoar as suas habilidades como radialista e produtor, chamando a atenção de inúmeros canais de televisão e estações de rádio.

Desde a narração e produção de documentários de reggae e cultura africana; a apresentação de séries de televisão como o “Rockers Roadshow” ou o documentário “Deep Roots Music”; consultor de reggae, fotografo e editor de noticias; até aos inúmeros programas de rádio no Reino Unido, Holanda, Austrália, Estados Unidos da América…Mikey Dread fez de tudo um pouco ao longo dos anos 80 e 90 (mesmo de tudo…inclusive uma apresentação do concurso Miss Black UK em Birmingham!), continuando a gravar inúmeros álbuns como os aclamados “World War III” (1980,DATC), “Pave The Way” (1982 Heartbeat), “Profile” (1991,RAS) ou “Rasta in Control” (2002,DATC).
Os palcos são outro dos fortes de Mikey Dread, com anos de experiência acumulada, quer com nomes de um universo mais amplo como UB40, Bob Dylan, Carlos Santana, ou nomes do reggae como Ziggy Marley, Bunny Wailer, Culture, Abyssinians, Judy Mowatt, Freedie McGregor, I -Threes…A banda “Fully Fullwood”, colectivo de antigos músicos de Peter Tosh, como Tony Chin ou George Fullwood, foi uma das suas bandas de tour, cargo actualmente entregue à sua própria…”Dread at The Controls band”, com a qual nos últimos anos tem percorrido palcos desde os Estados Unidos (onde reside actualmente), Canada, Europa até ao México e Argentina…

 

Mikey Dread live@Martha’s Vineyard (2006)

Em Fevereiro de 2007, e bem perto de completar 30 anos dedicados ao mundo da comunicação e do entretenimento, Mikey Dread apresentou no “Rock and Rock Hall of Fame” em Cleveland, mais um marco da sua multifacetada carreira,- “Life is a Stage”- o 22º lançamento oficial do outrora solitário e anónimo engenheiro de rádio Michael Campbell.

Life is a Stage

Gravado no estúdio jamaicano Anchor Studio(considerado o Rolls Royce dos estúdios…)e mixado no Tuff Gong Studio, a primeira impressão positiva em Life is a Stage, é a clara demonstração do amplo conhecimento que Mikey Dread possui da música reggae. À semelhança dos lançamentos recentes de nomes fundadores do roots, como Burning Spear, Max Romeo, Culture….Life is a Stage demonstra que Mikey Dread também sabe adaptar a essência dos som original jamaicano às novas tendências contemporâneas, mantendo toda a filosofia das raízes e cultura de há 30 anos atrás.
Para a criação desse som, Mikey Dread, reuniu em estúdio um conjunto de músicos, que são por direito próprio os pilares fundadores da música reggae, muitos deles, os mesmos que criaram com Mikey Dread em 1980 o seu aclamado álbum World War III.
Assim os lendários Sly Dunbar, “Flabba” Holt, Lincoln “Style” Scott, Sticky Thompson ou Felix “Deadley” Headley, voltaram, alguns décadas depois das últimas colaborações, a reunir esforços com Mikey Dread, originando uma genial interpretação moderna dos sons do final dos anos 70, inicio dos 80.
A Deadley Headley na secção de sopros, juntam-se Everton e Evral Gayle e Johnny “Dizzy” Moore, para a recriação em estúdio daquilo que têm sido o live show dos últimos tempos de Mikey Dread com a sua Dread at the Controls band.
A completar este line up de AllStars, nomes como Glen Brown ou Fully Fullwood nos baixos, os guitarristas Tony Chin ou Robbie Lynn e também Frankly “Bubller” ou Lloyd “Obeah” Denton nas teclas, encabeçam a lista de colaborações, que apresentam ainda em quase todas as 15 malhas do trabalho os back vocals femininos de “Brady” Ellendre Walters, Chantelle Ernandez, em harmonias muito bem conseguidas,a acompanhar a peculiar voz de Mikey Dread.

Life is a Stage AllStars

A sua entrega vocal natural, relaxada e repleta de sentimento continua intacta e completamente adaptada a esta versão mais contemporânea do roots. Ao logo de Life is a Stage, o seu estilo alegre, positivo e reconfortante não só é perfeito para garantir que ainda acredita e aprecia sua música reggae, mas principalmente para transmitir o grande forte do álbum, a profundidade lírica e temática apresentada.
Os louvores a Jah e á sua maior criação, a Vida, introduzem o álbum nos temas “Praise Jah Jah” e a title track “Life is a Stage”, seguidos pelo seu hino ao vivo, “Pound a Weed”(um remake do clássico “Have you Ever” de Dennis Brown), são a melhor intro que Life is a Stage poderia ter, elucidando o ouvinte para a qualidade musical e lírica ao longo do set.
A preocupação de Mikey Dread com questões sociais actuais, fica também bem clara na sua visão pessoal de temas como a reprodução celular ou a clonagem em “Stem Cells” e “Barcoding”…

Life is a Stage tracklist 

A sua obsessão durante os anos 90, o lovers rock, está também presente nos temas “I´m not the Kind” e “Dread next Door”…Africa e as raízes ancestrais tantas vezes mencionadas na música jamaicana são revisitadas em “Passing Through” e “Point of View”, e á medida que Life is a Stage roda, fica bem claro que Mikey Dread tem tanto ou mais a ensinar, que a maioria dos novos talentos da música jamaicana, na sua música.
Apesar de, há muito tempo para cá, Mikey Dread ter deixado um pouco de lado o seu estilo deejay, em destaque e no ouvido fica a mais imaginativa malha de Life is a Stage, “Soundbwoy Special”, um rub-a-dub special, dedicado a todos aqueles que elevam a música roots nos soundsystems, e também um avanço sonoro, daquilo que será o próximo álbum dubwise de Mikey Dread (com a inclusão de alguns dos jingles que tornaram o seu Dread at The Controls famoso!)

                     

Muitos dirão que com Life is a Stage, Mikey Dread está de volta…mas a verdade é que o original Reggae radio DJ nunca foi a lado nenhum, apenas soube ao longo dos tempos, não saturar o mercado com lançamentos ou aparições em todo e qualquer evento de reggae, preferindo alargar os horizontes e trabalhar em diversas áreas do mundo da música, entretenimento e comunicação. Se os seus dubs e riddims ajudaram a definir uma era sonora do reggae e o levaram até várias partes do globo, o seu estatuto de inovador da rádio, influenciou muitos formatos radiofónicos nos últimos 30 anos…No entanto nada melhor que o original, e expandindo cada vez mais a sua crença numa abordagem multimédia para publicitar o reggae, as Dubwise Selection Without Objection estão de volta, com o Dread At The Control em formato podcast, através do seu imaginativo website www.mikeydread.com

The Dread at the Controls podcast

Entre os extremos de, incompreendido por muitos dos conservadores do mundo da música , e aplaudido por outros tantos que comparam os seus padrões lunáticos na cabine de mixagem aos de Lee PerryMikey Dread, desde cedo fez questão de marcar a sua posição, quer através dos seus bizarros e inventivos mixes na rádio, ou dos seus avisos nas capas dos primeiros lançamentos: ”Dread at the Controls records are not for night clubs displaying signs saying ‘No Hat-No Tams’…by order,Mikey Dread”
Para o descrever na sua plenitude original e exorbitante ninguém melhor que o Weatherman Skank para dar a resposta à pergunta de…

“…Who´s the greatest footballer in the all wide world….there is no other answer to it than the man called Pelé…
…Who´s the greatest boxer in the all wide world…there´s no other answer to it than the man Moahmed Ali…
….Who´s the greatest operator in the all wide world….there´s no other answer to it than theman called Michael Campbell…Dread at the Control!”

Ray I

             

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