ZonaReGGae reviews “Rule the Time”


Midnite & I GradeRule the Time 2007 I Grade Records

Rule the Time

Localizadas no mar das Caraíbas as Ilhas Virgens foram descobertas e baptizadas em 1493 pelo habitual Cristopher Columbus e dividem-se, actualmente, em dois territórios distintos, pertencentes aos Estados Unidos da América e ao Reino Unido…Apesar da divisão política, as linhas imaginárias fronteiriças não distinguem as origens e laços culturais das populações deste paraíso natural…Saudável como sempre, a música representa uma grande porção da interculturalidade inerente às Caraíbas, e para além dos folclores tradicionais, Fungi, Quelbe ou Bamboula (muitos deles já extintos…) os estilos pan-caribenhos: Soca, Calypso e Reggae são as principais “importações” musicais do paraíso natural, tornado turístico, no final dos anos 70….

 US Virgin Islands       US Virgin Islands

Por aproximação geográfica, cultural ou energética o Reggae Jamaicano teve desde muito cedo uma influência crucial nas Ilhas Virgens norte-americanas, um conjunto de certa de 50 ilhéus com pouco mais de 119 mil habitantes, onde as 3 principais St. Thomas, St, John e especialmente St Croix, tem desenvolvido ao longo dos últimos 25 anos uma cultura inspirada no roots jamaicano, que reúne o melhor da vivência rastafari com uma inspiradora inovação musical que parece ser comum ao talento inerente aos músicos desta desconhecida localidade…

Por certo que nos eighties, já o reggae competia nas Ilhas Virgens com os mais populares Calypso e Soca, principalmente através de nomes “fundadores” como Ronnie Benjamin, Inner Visions, Midnite, Umojah ou Bambú Station…Essas foram as bases que vinte anos depois viram o trabalho reconhecido no florescer daquele que pode já ser considerado um dos novos movimentos musicais/culturais dos novo milénio! Este despertar do mundo para o VI Roots movement, deve-se em grande parte a três círculos complementares, o emblemático colectivo Midnite, a “revolucionária” label I Grade Records e…as ruas de St Croix!!!
De facto, desde 2000, que os Cruzians têm revelado um talento natural para o reggae, com dezenas de novos músicos, chanters, singjays & Mc´s a esperarem a sua oportunidade para espalharem uma vibe consciente e reminiscente dos seventies jamaicanos…

Muitos deles, conseguiram a sua estreia através da inovadora I Grade Records, fundada em St. Croix no ano de 2001, pelos “mestres” Laurent “Tippy” Alfred e Kenyatta Itola…dois dos mais dotados músicos e imaginativos produtores das VI, que formaram a I Grade Records com a missão de produzir e lançar o roots reggae de grande qualidade que começou a surgir em St Croix e nas Ilhas Virgens em geral, e “orientar” a criação musical dos novos talentos da Ilha….
Desde então, a I Grade já lançou quase duas dezenas de álbuns, e é já aclamada pela capacidade de “mostrar” ao mundo, algumas das mais fascinantes vozes do reggae dos últimos tempos, com as estreias de Dezarie, Abja, Army, Yahdanai ou Niyroah….entre muitas outras produções, compilações, e colaborações com o mais surpreendente colectivo das VI – os Midnite!

VIRoots.com

Se o som da I Grade Records é sem dúvida alguma enraizado na tradição jamaicana, o hip-hop, o soul ou o jazz completam a identidade musical da label, assente actualmente na connection entre o clássico e o moderno….o mesmo se pode insinuar acerca dos Midnite, quinteto formado no final dos anos 80 em St Croix pelos irmãos Ron & Vaughn Benjamin, teclas e voz, (filhos do “fundador” Ronnie Benjamin), pelos riddim providers Dion Hopkins & Joe Straw (bateria e baixo) e por Trippa (guitarra)…. (actualmente Abijah na guitarra, e Philip Merchant no baixo)

Midnite

Aquando da formação, o reggae nas Illhas Virgens era escasso e underground, daí a precoce mudança para Washington DC, casa dos Midnite nos praticamente seis primeiros anos de existência, onde criaram uma legião de fãs, que religiosamente os seguia, onde fossem tocar os seus poderosos e famosos sets, muitas vezes, superiores a 3 horas!!!
Os dois primeiros álbuns “Unpolished”(1997) e “Ras Mek Peace”(1999), quebravam as regras da altura, onde o Roots cru e duro dos Midnite (em “Ras Mek Peace” gravado para apenas duas pistas e masterizado sem qualquer recurso digital!) não encontrava ainda espaço na indústria de promoção…determinados a seguir em frente e a quebrar os “moldes”, o retorno a St Croix para formar a própria label African Roots Lab e trabalhar com os artistas locais sem interferências “babilónicas”, trouxe uma série de novos álbuns ao longo dos anos como: ”Jubilles of Zion”(2000) ”Seek Knowledege Before Vengeance”(2002), “Intense Pressure”(2003) “Scheme a Things”(2004) ou “Ainshant Map”(2004)

O reggae dos Midnite, sempre foi expansivo e hipnótico, para além de repleto de mensagens de paz, união universal e resistência cultural…e uma intensa criatividade e exploração musical inerentes ao génio dos irmãos Benjamin…A música africana, o World Beat, jazz, hip-hop, dancehall, a electrónica e até mesmo as chamadas tendências “industriais”….todas e muitas mais, começaram a fazer parte das viagens musicais dos Midnite, principalmente através do projecto paralelo Midnite Branch I (liderado pelo baixista Philllip Merchant, e que apresenta “o som” distinto…e desconcertante dos Midnite), e de colaborações com novas editoras, produtores, bandas e projectos como como Ras L (Thru & True), Mystic Vision (“Current” & “New 1000”), Lion Tribe (“Suns of Atom”), Groundbreaking Records (“Anned”)…

Claro está que a I Grade Records, faz também muita da história recente dos Midnite, com alguns dos membros da banda, em conjunto com Laurent “Tippy” Alfred (produção e guitarra) e Kenyatta Itola (baixo), a lançarem desde 2001 até á data, seis álbuns da formação “Midnite – I Grade”, provavelmente a mistura ideal – o roots expansivo dos Midnite e as inovadoras técnicas de produção da I Grade

Para um colectivo que nos últimos 6 anos esteve envolvido na produção e gravação de cerca de 20 títulos tão distintos, é compreensível o descrédito e desânimo que a crítica e o núcleo de fãs do roots oldscholl dos Midnite tem demonstrado nos últimos tempos, face à demasiada divagação musical da banda…no entanto a história discográfica Midnite – I Grade, “conta-nos” algo diferente: “Nemozian Rasta” (2001), Roots, com a divina voz de Dezarie em três malhas; dancehall e hip-hop, recordam as raízes do grupo e introduzem novas tendências; Assini (2002); Geoman (2002) e Vijan (2003), acompanham o período criativo dos Midnite Branch I, com a fusão de estilos e a exploração pelo universo dos instrumentos a demonstrarem uma enorme evolução musical….por fim Let Live (2005) Jah Grid (2006) parecem anunciar um novo ciclo que os levou até ao mais recente lançamento Rule the Time (2007), o retorno à vibe do oldscholl, com todo o ensinamento que a divagação dos últimos anos proporcionou…

Rule the Time tracklist+infos

Dois aspectos destacam-se ao longo das 19 malhas de “Rule the Time”: o extraordinário entrosamento instrumental e a qualidade visionária e poderosa da lírica e voz de Vaughn Benjamin…O misto de vocalizações tribais e spoksword dub poetry tradition de Benjamin, acompanham praticamente qualquer tema que conta com a sua presença…e “Rule the Time” não é excepção, com a intensidade, mística e sentimento da voz de Benjamin a apresentar aqui mais uma extraordinária aventura lírica, de uma voz única no mundo e que nem sempre encontra espaço na música para as suas palavras e pensamentos visionários de alerta para os dias atribulados e crença nos poderes superiores (Vaughn Benjamin lançou recentemente “Koll Pekude”, livro de poemas que reune cerca de 120 poemas e letras por editar, onde podemos “ouvir” a profundidade da escrita, espírito rebelde e liberdade de pensamento de um dos mais prolíficos songwriters da actualidade!)

Koll Pekude

A providenciar o pano de fundo para o interminável flow de Benjamin, os membros da Red I Band, T Rock, Kenyatta Itola e Tuff Lion providenciam muita da base musical, com o próprio Vaughn Benjamin e o produtor Tippy a interpretarem também uma série de instrumentos…Jah Rubal, um dos chanters do momento em St Croix, dá a sua voz em “Sellassie I Say”, num estranho, mas inovador Singjay style. A completar, o trompetista Balboa Becker e o saxofonista Garret Kobsef acompanham com o aspecto mais único de “Rule the Time”, um trabalho de arranjos de sopros (em 11 dos temas…) que nos leva até aos tempos dos seventies jamaicanos, recriando a força e ingenuidade dos sopros dessa era clássica, audível logo nas malhas de abertura “Stretch Out”, ou no single de apresentação “His Majesty”.

Artwork by Marcus

È difícil destacar os melhores momentos de “Rule the Time”, e ainda que temas como “Runaway” “Sensi Tie Chi”, “Symbal is the Leaf” ou a jazzy style “Get Up”, continuem a marcar a presença eclética inerente à história dos Midnite, temas como “Love & Light”, “Rule the Time”; “Again A Lion”, “Born in the Time” ou Good Thoughts” são autênticas hinos inspirados na música roots, que nos envolvem num enlighment descritivo dos tempos em que vivemos e da “cura” visionária a seguir…
A emoção e o coração, são dois “membros” que é também possível descortinar como omnipresentes na criação de “Rule the Time”, tal a força e intensidade com que este “novo” som dos Midnite nos ataca…

O estrelato está banalizado por todo o universo da música, e invariavelmente já desprovido da sua essência….os Midnite possuem essa essência desprovida do compromisso com o estrelato, mas firme e estabelecida através da já longa luta para quebrar as regras e introduzir novos padrões…. O talento natural, a visão musical…a crença em Jah Rastafari e a devoção a Sellassie I, são essas as fundações do som único dos Midnite, máximos representantes daquilo que se pode entender como Modern Roots Revival…a actualidade e o futuro da música reggae são um dos reasonings dos dias de hoje…o futuro só o tempo presente ditará…e para os Midnite….

”Time is not counted from daylight…but from Midnite”

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