ZonaReGGae reviews “Many Moods of…Alton Ellis”


Alton Ellis - Many Moods of…2006 Makasound/ Masssala Records

A independência jamaicana a 5 de Agosto de 1962, foi um momento fundamental para a definição do percurso musical em que os jamaicanos viriam a enveredar. A relativa prosperidade económica da ilha gerou um vaga de optimismo nos ghettos jamaicanos que atingiu a expressão máxima com o hastear da “nova” bandeira jamaicana, símbolo dessa mesma prosperidade, das raízes culturais e do eterno passado recente. O ska, foi a outra expressão, evolução embrionária do US made boggie jamaicano, ska era algo entendido como exclusivamente jamaicano, musicalmente ideal para a orgulhosa e emergente nação, finalmente livre do colonialismo…

A música acompanhava a alta moral, e evoluía a um ritmo impressionante, com os principais estúdios e respectivos produtores a proporcionarem um enorme crescimento da indústria de gravação e lançamento de novos artistas…o mesmo já não se pode afirmar da economia do novo país, que um par de anos após a independência decaiu…A fuga dos investidores britânicos, a brutal exploração dos recursos por parte dos norte-americanos, a decadência da exploração e mercado agrícola, tudo resultados do incumprimento das promessas feitas pelos políticos da independência.
A fuga para os centros urbanos, cliché da existência humana, aumentou o desemprego, gerou ondas de violência ao bom estilo rudeboy jamaicano e sobrepovoou os ghettos, por esta altura, bem piores do que quando submetidos ao poder colonial britânico.
Tudo parecia o mesmo e paralelamente em mutação…os soundsystems, como sempre desde as fundações uma década antes, permaneceram o ponto central das comunidades (desfavorecidas…). Qualquer que fosse o cenário, os soundsystems garantiam que a música jamaicana fosse feita em resposta ás exigências dos seus “clientes”…A exuberante batida do ska, parecia já não se enquadrar no fracasso pós-independencia, e os deejays estavam prontos para introduzir o mais lento, tenso e dançável Rocksteady.
Menos sopros e um bass driven riddim, eram o ênfase musical da rocksteady vibe, que é hoje vista por muitos como a tradução artística da frustração sentida pelos jovens dos ghettos…não fossem muitos deles, os próprios artistas que começavam a mostrar o seu talento através do novo estilo.
De entre os muitos da zona de West Kingston, surgiu o detentor da mais aclamada voz da era rocksteady – Alton Ellis – voz suave, doce e emotiva, representativa do melhor do soul, que tanto influenciara os primórdios deste novo ruling sound.

Alton Ellis

Baptizado Alton Neamiah Ellis em Kingston (1944), a formação de canto e piano logo desde pequeno, levaram-no a entrar na “profissão” aos 14 anos de idade, aquando do convite de Eddie Perkins para formar o duo Alton & Eddie. O single de estreia “Muriel”, gravado em 1959, foi um hit da cena R&B jamaicana. Gravado no mais antigo estúdio de gravação da ilha – Federal Records Studio“Muriel” proporcionou a Ellis e Perkins um lugar nas fundações da história da musica jamaicana, uma vez que foi uma das primeiras gravações comerciais na Jamaica (conduzida por Coxsone Dood), numa época em que o processo de captação das gravação era todo realizado através de um só microfone, e como o próprio Ellis recorda em “Rough Guide to Reggae” tudo feito numa
 “…one track studio, an’ when they count 1-2-3-4, everybody have to be there. Who is not there, the train is gone! One mike standin’ in the middle of us, everything going’ through the same mike. The vocalist would get closest to the mike, an’ everybody a lickle bit closer an’ closer accordin’ to the volume of what he’s playin’. The engineer, he was mixing at the time(…)when he say ‘GO’…that´s it.One take, no comin’ back.That´s it.”(p.21)
 E era isso, e muito mais…era o inicio de toda uma nova era musical, e quando Perkins partiu, pouco tempo depois, para uma carreira a solo nos Estados Unidos, Alton Ellis continuo sozinho e na linha da frente dos vocalistas do dominador Studio One, durante o inicio dos sixties.
As dificuldades financeiras, levaram Ellis a tentar um outro estúdio, em 1965, o Treasure Isle de Duke Reid, onde se formou o trio vocal The Flames (mais tarde os Righteous Flames de lead singers como Lloyd Charmers e Winston Jarret), que viria a ser o seu backup vocal para os hits que o afirmaram como o “Mr Soul” a voz do Rocksteady.

 

“Girl I´ve fot a Date”(1966) foi o grande hit, que colocou Duke Reid no comando da música pós-ska, ultrapassando o domínio de Coxsone Dood pela primeira vez. O sucesso nos soundsystems foi imediato e longínquo como nenhum outro som até à altura. “Cry Tough”, “Dance Crashers”, “Harder and Harder” e “Blackman Pride” foram os singles que consolidaram o estatuto e estrelato de Alton Ellis e revelaram a sua pioneira faceta social anti-rudeboys. Esse grande ano de ’66, ficou também marcado pela inscrição do seu nome nas referencias históricas da música reggae, com o single “Get Ready Rocksteady”, o primeiro uso do termo…Foi também dessa gravação de estúdio que surgiu a nova batida do Rocksteady, fruto do teclista Jackie Mitto, ter substituído a falta do baixista contratado para a sessão. Mitto ao não ter conseguido acompanhar a frenética batida do ska, sugeriu a desaceleração do tempo…a voz de Ellis adaptou-se que nem uma luva à nova batida, que num ápice tomou conta do som jamaicano.

 

Perto do final dos 60Ts, o LP “Mr Soul of Jamaica” foi o marco definitivo da era Rocksteady, álbum que Ellis lançou para Duke Reid, numa altura em que oscilava as suas gravações entre os arqui-rivais Tresure Isle e Studio One, tal era a sua reputação!
Ken Boothe, Jonh Holt ou Pat Kelly, eram os nomes que acompanhavam Ellis no aproximar de mais uma mudança musical para o early reggae, e finalmente para a roots rasta age.
As covers de soul e o Lover Rock eram outros dos “formatos” favoritos de Ellis que gravou ainda alguns singles acompanhado pela irmã Hortense Ellis, e à medida que o novo “reggae” tomava conta dos estúdios de gravação, Ellis começou a gravar para novos produtores como Lloyd Dalley e Keith Hudson, este último a revelar algumas mensagens rastafari em Ellis como os singles “Lord Deliver Us” e “Back to Africa”.
Os sons mudavam, mas a difícil vida de músico não, e Ellis, desiludido com a inexistente compensação pelo seu sucesso, viajou para os Estado Unidos, Canada e por fim Inglaterra, onde tinha atingido sucesso aquando da sua tour com os Soul Vendors no final dos anos 60…
Por terras britânicas, fundou a sua label Altone Records; tornou-se num dos nomes fundadores do Lover Rock british style (o reggae pop dos dias actuais) e ganhou um maior entendimento do asfixiante negócio musical e da exploração que era feita na Jamaica….Talvez por isso, o retorno à terra natal e as gravações na ilha tenham sido esporádicas, preferindo as reedições e compilações dos seus clássicos através da sua label.

          Makasound.com             

Na mesma linha da Altone Records, desde os anos 80, tem surgido inúmeras labels, dedicadas a prestar tributo às estrelas que os meios de comunicação e “promotores” do passado falharam em reconhecer…As labels de reissues dos nossos tempos não podiam esquecer a mais respeitada voz jamaicana (antes de Bob Marley…), e o mais recente tributo a Ellis foi prestado pela editora francesa Makasound.
Com um catálogo dedicado a sons franceses contemporâneos, edições revivalistas dos fundadores do roots reggae e às grandes “pérolas” esquecidas no tempo, a Makasound divide-se entre a Black Eye, MakaFresh e Inna de Yard, para trazer até aos nossos dias os sons de roots reggae picantes, pontiagudos e espinhosos, resumindo os álbuns que fazem mal às actuais tendências musicais…Maka, no patois jamaicano, significa isso mesmo, espinhoso e picante…Quer já tenham sido lançados, ou não, a Makasound introdu-los no mercado, tentando “libertar” os álbuns esquecidos no labirinto da música jamaicana…universo ao qual a label pretende devolver a honra que lhe é devida!
 Em Portugal, a Massala Records aliou-se a esta filosofia, representado esta editora, ainda escassa em reconhecimento, bem como toda uma série de outras empenhadas em promover música do mundo e independente, que os meios de massas querem fazer querer que não interessam a ninguém…
Um que deve interessar, pelo menos aos amantes da história musical jamaicana, é Many Moods of Alton Ellis…

Many Moods of Alton Ellis

Originalmente lançado em 1980 pela Tele Tech, Many moods of… centra-se em gravações realizadas por Joe Gibbs no Treasure Isle entre os anos de 1972 e 1983. As 17 malhas do cd, reeditam o original LP de 1980, com 7 bónus track, numa esplendorosa mistura de lovers rock e roots reggae.
Apesar disso, a vibe soul dos tempos rocksteady de Alton Ellis é um primor, constante ao longo de todo o set, principalmente nos temas roots&culture, “Rise and Fall”, “No man is Perfect” ou “The Humble Will Stumble”…temas que para além de demonstrarem a adaptação de Ellis ao roots, contam ainda com os backing vocals dos Heptones!
O rol de participações de luxo no álbum prosseguem, logo á partida com a partilha da mesa de mistura entre Prince Jammy, Scientist e Lee Perry, que “empresta” a sua Black Ark vibe na extraordinária “The Children are Crying”.
Entre as bónus tracks, a versão do tema de Hugh Mundell para Augustus Pablo “Blackmans foundation”, aqui apelidada de “Black on Black”, o rework do single para Duke Reid “If I Could Rule the World” ou as duas versões de “Stronger” a fechar o álbum, são razões mais do suficientes para nos questionar-nos acerca de qual a razão porque Alton Ellis não vingou na era dourada do roots reggae…
Os “gigantes” Jonhny Clarke (backing vocals), Bongo Herman (percussões), Bobby Ellis (trompete),Vin Gordon (trombone), Ansell Collins (teclas), Carlton Davis e Sly Dunbar (bateria) ou os míticos vocals/bass players Lloyd Parks e Leroy Sibbles….entre um fascinante alinhamento de estrelas jamaicanas, asseguram a qualidade musical deste Many Moods…de roots, rockers, lovers rock, rocksteady, dub…sonoramente muito potente, historicamente elucidativo, culturalmente inspirador…

A opção de “migrar” para Inglaterra, o crescimento do roots reggae e a popularidade global de Bob Marley, ofuscaram por certo o legado de Alton Ellis, e os seus áureos tempos da fundação do Rocksteady, não só foram esquecidos, como nunca se voltaram a repetir…Olhando para o passado, Ellis simboliza a história de muitos vocalistas jamaicanos: um começo ainda adolescente; uma popularidade massiva mas temporalmente limitada; e um declínio gradual, que só nos dias de hoje é ultrapassado pelo reconhecimento de Ellis como um dos Pais Fundadores da Música Jamaicana, finalmente referenciado como a principal voz soul da ilha…
Perto de 50 anos de uma carreira ímpar, confirmada pelas legiões de fãs que seguem em palcos norte-americanos e europeus o “Mr Soul of Jamaica”!

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